Barões ladrões adoram cheirosinhas

A jornalista “cheirosinha”

Vamos começar partindo do fato: Eliane Cantanhede é uma jornalista medíocre. Usa os meios a seu dispor para fazer militância elitista e narcísica. Pró-PSDB, sempre – a quem chama carinhosamente de “cheirosos”.

Vamos analisar mais uma das suas estripulias analíticas. Brasil e China acabaram de fechar uma série de acordos bilionários – dois deles, pelo menos, extremamente estratégicos. E isso é estranho porque, segundo nossa imprensa e ela expressando-se em diversas ocasiões, o Brasil é alvo de desconfiança internacional, marginalizado globalmente.

E qual a interpretação de Cantanhede para o fato já que a realidade não correspondeu as suas expectativas? Que o país esta ”de pires na mão”.

No entanto, se fosse no governo FHC – esse sim um exemplo clássico de governo prostrado, que submeteu diplomatas brasileiros a múltiplas humilhações internacionais, além de conseguir a proeza inigualável de quebrar o país três vezes – ela tranquilamente afirmaria que os 36 acordos sino-brasileiros seriam reflexo de altivez e “boa governança”.

Em breve, Dilma e Obama também se encontrarão e novos acordos virão. Vamos ver qual será a sua “interpretação”, assim como de coleguinhas tão medianos quanto. (Ela, certamente, deve desconhecer que tanto a visita do premiê chinês quanto a visita de Dilma aos EUA estão agendadas há pelo menos dois anos)

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Decência é algo muito escasso na imprensa brasileira e muitos dos seus “articulistas” nada mais são do que vocalistas em shows com “play back”.

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Não é sexismo

E é bom que se diga, sem receio de ser acusado de sexismo, que no jornalismo brasileiro, a acuidade e honestidade das profissionais do sexo feminino estão muito abaixo da crítica. E quase nada elas contribuíram para que deixasse de ser um ambiente mazelento. São, em sua maioria, especialistas em distorcer os fatos devido a uma ideologia rasteira. Estão por todos os lados! Acompanham Cantanhede, Rosangela Bittar (“Valor”), Miriam Leitão (“Globonews”) e tantas outras.

Desafortunadamente, aquelas jornalistas com maior gabarito e independência são demitidas por seus chefes, pois não praticam a vassalagem costumeira. (Me lembro, por exemplo, de Maria Inês Nassif demitida do jornal “Valor” – por suas qualidades e não defeitos). Mas, isso é o esperável, no cenário da mídia tupiniquim, pois a maioria de seus donos nada mais são do que “barões ladrões”.

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O efeito colateral desse fato é que jornalistas de pouco ou nenhum talento como essas facilitam muito a vida de governos marcados pela inépcia, descoordenação e malversações diversas como o de Dilma Rousseff.

 

A nítida insuficiência intelectual e o comprometimento político fazem com que pessoas de bom senso não levem a sério essas análises. Pregam para convertidos.

Depravados do Eça

Renan e Cunha: os depravados de Eça?

Por que será que ao ler o noticiário político de hoje referente à Renan Calheiros (presidente do Senado e Eduardo Cunha (presidente da Câmara dos Deputados) me lembrei  da passagem abaixo em um dos contos de Eça de Queiroz:

“(...) homem depravado e bravio, consumido de cobiças grosseiras, desejando só a realeza por causa de seus tesouros...”.

(Eça de Queiroz, in “A Aia” – Civilização e outros contos / Ediouro, 1996 – pág. 104)

Teria Eça, além de tudo, antevisto os descaminhos da política brasileira, mesmo depois de passados 115 anos de sua morte?

 

A descrição é perfeita. E ainda dizem que a Literatura não é profética...

Marta Suplicy e a beatice conveniente

Senadora e psicanalista afetada pela “síndrome de hipóstase” esteve e fartou-se no chiqueiro, mas só agora reclama do cheiro

                Sabemos todos que a política é um campo fertilizado pelos oportunistas, seja nessa ou em outras bandas. É um comportamento universal. Afinal, as sanhas de poder e benesses econômicas estão comodamente à mão. Mas, o pior entre os aproveitadores são aqueles que acreditam omitir suas reais intenções diante da ingenuidade geral. Soma ao oportunismo a pretensão. Diatribes e sofismas são elaborados para obscurecer seus reais e nada admiráveis propósitos. Esse é o caso da atual senadora Marta Suplicy (eleita com meu voto, diga-se).

                Após 33 anos desfiliou-se do PT alegando “questões éticas”. Entretanto, como é evidente a todos, essa não é uma atitude sincera – o que é especialmente perturbador numa psicanalista. O que a move são ambições políticas, nada desabonadoras em si. A realidade, no entanto, lhe é desfavorável, já que não tinha respaldo no partido para a sua candidatura a prefeita de São Paulo em 2016, além de esbarrar no direito legítimo e constitucional do atual prefeito, Fernando Haddad, em ser candidato a reeleição. É aí que entra a cobiça sem freio, resultante do mundo não obedecer as suas expectativas imediatas.

                Marta quer o poder e já! E para isso ala atropela princípios dos quais acusa outros de abdicar. E quando é assim, o custo para “chegar lá” não importa. Especialmente os éticos. A mentira torna-se uma grande e inseparável aliada. Digressões éticas artificiosas, não vão esconder o fato de que, literalmente, “cospe no prato que comeu” e fartou-se até a indigestão. Sai atirando sobre quem, até a pouco, lhe deu respaldo e guarita, inclusive sendo ministra de Estado por duas vezes (péssima nos dois momentos). Enfim, ela “relaxou e gozou” – tal como sugeriu a população durante o “caos aéreo” – contudo, agora, quer outros orgasmos, com parceiros com menos probabilidade de satisfazê-la. A não ser que tenha rebaixado demais seus padrões, pois se tornou amiga e queridinha de gente como José Sarney, José Serra, além de colunistas e acadêmicos ventríloquos (Magnoli, Reinaldo Azevedo, Eliane Cantanhede etc.). E também está a caminho de virar heroína de uma extrema-direita saudosa...

                A alegação de uma dismorfia moral do PT para justificar sua nova “tacada” política é essa, sim, uma grave anomalia de caráter, afinal foi ministra e depois senadora pelo partido no período pós “mensalão” e não se mostrou nada incomodada. Ser oposição depois do desfrute de ser governo – e, ainda, recusar-se a abdicar do mandato que obteve com o respaldo do partido – lembra imediatamente os ratos da ditadura ao abandonar os militares rumo a “Nova República” (1985), muitos deles (como Sarney), seus amigos agora.

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                Tudo indica que a senadora e psicanalista sofra da “síndrome de hipóstase”, ainda não catalogada nos anais acadêmicos, todavia ela se transforma numa interessante fonte inicial de estudo, a não ser que abdique de subterfúgios para alavancar suas ambições políticas – que são naturais e não precisam de diversionismos para se justificarem.

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                E cabe a pergunta que somente evidencia esse oportunismo acachapante: que diacho de feminista é está que, depois de quase duas décadas separada e com dois casamentos posteriores, continua usando o sobrenome do ex-marido do século passado? (Lembrando que a atual legislação brasileira desobriga as mulheres de adotarem o sobrenome do marido). Acho que tenho a resposta: Marta sabe que ele remete a alguém – esse sim – com amplo respaldo ético.

Civilização solidária ou solitária?

Um país deprimido 

Das nações afloram estereótipos. Os do Brasil sabemos: país do carnaval, do futebol (! ?) e da sensualidade alegre e vibrante.

Como isso, então, coaduna com o fato de sermos os vice-campeões mundiais no consumo de ansiolíticos e antidepressivos e também de remédios para a disfunção erétil (Viagra, Cialis etc.), além de termos alcançado, neste ano de 2014, a honrosa liderança na realização de cirurgias plásticas. Isso reflete um incomparável mal-estar psíquico, emocional e físico.

“O Brasil é um país deprimido”, disse recentemente Andrew Solomon, um estudioso da doença e também uma de suas vítimas, em uma recente palestra na FLIP.

Como pode não ter razão?

Apresentamos inúmeras disfunções emocionais e sociais: baixa sociabilidade (basta ver as insanas batalhas verbais intensamente ofensivas – e nada esclarecedoras – tão presente nas redes sociais), cultura débil tão propensa a discussões rasteiras, alta irritabilidade (expressa, por exemplo, em concentrarmos 11% dos homicídios globais) e a incrível facilidade de terceirizarmos responsabilidades.

Tudo isso é reflexo de um povo que não se encontra, com quase nada se identifica e com um grau elevado de alienação.

Aí você pode argumentar: “Ah, mas a depressão manifesta-se pela apatia!”. É verdade, mas essas patologias tão corriqueiras manifestam uma incrível apatia para a convivência e tolerância.

 

Internamos-nos todos, como há mais de 130 anos sugeriu Machado (“O Alienista”, 1882) ou somos um retrato da inviabilidade civilizatória ou ao menos suas graves anomalias, pois somos incapazes de administrar nossos impulsos, sublimá-los – como Freud previa (“O mal-estar na civilização”, 1930) ? ?

Coveiros da solidariedade

No mesmo dia, dois dos mais importantes dirigentes políticos e partidários da União Europeia, David Cameron (Reino Unido) e Sarkozy (ansioso para retornar a presidência da França) deram declarações xenófobas e anti-imigração, responsabilizando os estrangeiros pela atual apatia econômica da ‘zona do Euro”. Uma história comum acompanha esses líderes europeus, como Tony Blair (antecessor de Cameron) e o próprio Sarkozy. Assim que saem de seus cargos executivos tornam-se conselheiros de grandes conglomerados financeiros – os mesmos que causaram a atual crise econômica cujas raízes remetem aos anos 2007/8.

Recebem salários “gordos” e disponibilizam suas informações privilegiadas, úteis a todo tipo de maracutaias (providencialmente, Sarkozy responde a dezenas de processos judiciais e nesta semana um ex-primeiro-ministro português foi preso). São, portanto, personagens atuantes na financeirização desastrosa do continente, responsável pelos atuais 27 milhões de desempregados, com uma juventude desacorçoada quanto ao seu futuro.

São agentes determinantes da crise e, ao mesmo tempo, impulsionam suas carreiras políticas responsabilizando os imigrantes pela crise – os “bodes expiatórios” convenientes.

 

E, com isso, tudo indica que o próximo presidente francês será da extrema-direita – Mariane Le Pen ou Sarkozy – isto, naquele país que inventou os direitos humanos e tinha um slogan “revolucionário” nos anos 1970: “Todo cidadão deste mundo tem duas pátrias, a sua e a França”. Foi esquecido...

Imunologia literária

Leitura é imunizante

As dores da África, mas também seu charme multiétnico = e por que não, suas alegrias – têm sido nos contado por uma literatura vivaz e inovadora. Sabemos que dissabores produzem grandes obras literárias que não precisam ser necessariamente rancorosas.

Ao contrário, as passagens líricas são comuns e originais, como esta do romance “O FILHO DE MIL HOMENS” (Cosac & Naify, 2013, págs. 68/9), do angolano Valter Hugo Mãe:

“Para entreter curiosidades, o velho Alfredo oferecia livros ao menino e o convencia de que o ler seria fundamental para a saúde. Ensinava-lhe que era uma pena a falta de leitura não se converter em doença, algo como um mal que pusesse os preguiçosos a morrer. Imaginava que um não leitor ia ao médico e o médico o observava e dizia: você tem um colesterol a matá-lo, se continuar assim não se salvo. E o médico perguntava: tem abusado dos fritos, dos ovos, você tem lido o suficiente. O paciente respondia: não, senhor doutor, há quase um ano que não leio um livro, não gosto muito e dá-me preguiça. Então, o médico acrescentava: ah, fique pois sabendo que você ou lê urgentemente um bom romance, ou então vemo-nos no seu funeral dentro de poucas semanas. O caixão fechava-se como um livro. (...) e quem não lesse livros caía-lhe o teto em cima de podre”.

 

Não seria essa uma boa estratégia para conter a epidemia de ebola, agora em andamento, na África Ocidental?

Revitalizar ou descrédito

A democracia envelheceu

É preciso “democratizar a democracia”, superando uma democracia de baixa intensidade

             Em um mundo assolado por atentados terroristas, combates ao terrorismo com práticas terroristas, “guerras cirúrgicas”, genocídios sistemáticos, julgamentos de tribunais internacionais, intervenções atuais ou futuras baseadas numa suposta luta contra “eixos do mal”, alianças políticas nacionais e internacionais até então impensáveis etc., pensar e repensar sobre a vitalidade da democracia é de uma urgência atroz.

            O que parece evidente é que em um mundo, hoje dominado e analisado por concepções econômicas baseadas no individualismo competitivo, a maior parte das pessoas mostram-se mais predispostas a aceitarem a corrupção da democracia em troca de um bem-estar material até agora inalcançável. Portanto, as frustrações se ampliam seja entre aquelas populações dos países desenvolvidos e ainda mais naqueles subdesenvolvidos, onde sequer as condições mínimas de sobrevivência existem de fato.

            Os grupos políticos associados à esquerda têm se mostrado inapetentes em criar condições diferenciadas dentro do jogo político e econômico, frustrando ainda mais eventuais expectativas políticas de reformas que pudessem induzir ao bem-estar socioeconômico dos excluídos ou manter em proporções satisfatórias o daqueles incluídos. Isso acontece porque obedecem as linhas gerais do consenso liberal, construindo governos estritamente preocupados em agradar aos órgãos internacionais de créditos (FMI, Banco Mundial) ou aos banqueiros-especuladores. E, para isso, privatizam, reduzem gastos públicos, aceitam passivamente a mercantilização da educação e saúde, sendo que os líderes mais dissimulados e oportunistas afirmam estar construindo uma insossa “terceira via”.

 “Democracia capitalista”

 O fato é que a democracia jamais irá se consolidar dentro do jogo capitalista. Por uma razão bem simples: trata-se de um sistema econômico competitivo onde a preocupação com a igualdade e solidariedade social significaria redução de lucros, coisa que não interessa aos empreendedores capitalistas, sempre preocupados em maximizar seus ganhos, sem se preocuparem muito com os eventuais custos sociais desse processo (desemprego, subassalariamento, condições de trabalho insatisfatórias etc.). Por isso, é importante existir um Estado operante que esteja preocupado em agir efetivamente para uma melhor distribuição das riquezas, mesmo que por meios indiretos, como a tributação. A produção de riqueza é fundamental e ninguém provou ser capaz de fazer isso melhor do que o modo de produção capitalista, mas ela não deve se constituir e se construir com base na exclusão crescente. O interesse coletivo deve se sobrepor ao interesse individual, sem aniquilá-lo.

            Mas o que aconteceu com a democracia ao longo do último século é que o capitalismo apoderou-se dela, estabelecendo os parâmetros históricos para defini-la e realizá-la, procurando institucionalizá-la ao máximo, afastando suas contradições e, portanto, a sua força radical transformadora, fazendo do jogo político, encenação e não ação.

 

 

(Artigo originalmente publicado no jornal “O Imparcial”, de Monte Alto, 08/08/14)

Legado centenário

O terrorismo é um legado cultural do século XX

Eventos como os que ocorrem na Faixa de Gaza, não são acontecimentos extemporâneos; vinculam-se ao contexto sanguinário dos últimos 100 anos.

 

      A primeira lição a ter em mente quando se fala ou se escreve sobre terrorismo é verificar se o que está sendo dito é de fato terrorismo.

     O mundo, desde os atentados de 11 setembro 2001, foi bombardeado por mensagens bélicas e de vingança supostamente baseadas na necessidade de se travar numa “guerra contra o terrorismo” liderada pelos Estados Unidos em busca da “liberdade duradoura”. Tudo nos é mostrado como se esse país fosse uma vítima indefesa de um atentado brutal extemporâneo, ou seja, fruto único e exclusivamente da ação de um grupo de fanáticos. É bom saber que tudo tem um contexto, mesmo as mais brutais barbaridades.

            Os ataques de Hiroshima e Nagasaki, patrocinados pelos EUA, ao final da Segunda Guerra Mundial, vitimaram mais de 150 mil civis indefesos e os seus defensores certamente lhe atribuíram um contexto, mesmo se questionados sobre a morte de milhares de crianças que nada mais faziam do que estar em sua escola assistindo aulas.

            Não deve ser omitido o fato de que os Estados Unidos, em razão de diversos atos terroristas que praticou no pós-guerra, são o único país do mundo que já foi condenado pela Corte Mundial por terrorismo internacional – ou por uso ilegal da força com objetivos políticos. A condenação se deu como resultado de suas ações contra a Nicarágua sandinista que adotou uma política externa independente e, por isso, foi vítima de bárbaros atos terroristas que destruíram cooperativas agrícolas e postos de saúde. O governo dos Estados Unidos fez pouco caso da condenação e recusaram-se a pagar reparações e indenizações e aumentaram seus atos belicosos, sem que fosse vítima de sanções ou intervenções da ONU, que aconteceram, por muito menos do que isso, em locais como o Kuait e a Bósnia.

A definição de terrorismo é cristalina: é o uso de meios coercitivos voltados contra a população civil, com o propósito de atingir objetivos políticos, religiosos, econômicos etc. Isso também acontece quando o governo dos Estados Unidos autoriza a CIA a abastecer Israel de helicópteros militares que são utilizados para massacrar a população civil palestina, além de ser útil para destruir alvos não militares, como a principal rádio da comunidade palestina, uma usina hidrelétrica na Faixa de Gaza, além de escolas administradas pela ONU como fez recentemente o exército israelense.

O fato de Israel ser aliado incondicional dos Estados Unido é que permite que cometa tantas arbitrariedades e atos de vinganças desproporcionais que seria impensável em relação a qualquer outro país que, como sabemos, seria imediatamente retaliado. Protestos formais do governo estadunidense são apenas um hipócrita jogo de cena. Entre as muitas perguntas que ficam uma cabe muito propriamente: por que não coordena um bloqueio econômico e financeiro em relação a Israel junto com os países da União Europeia, tal como faz nesse momento em relação à Rússia devido aos conflitos no leste da Ucrânia?

 (Artigo originalmente escrito para o jornal “Tempo”, de Monte Alto, 08/08/14)

Ficções realistas

Obras ficcionais políticas e históricas enriquecem o imaginário e nos informam sobre o mundo

 (1a parte)

            As leituras de romances e de obras ficcionais em geral são meios extraordinários para aprimorarmos o nosso universo intelectual e espiritual ao mesmo tempo em que nos proporciona subsídios para pensarmos e escrevermos melhor.

            Teço aqui breves comentários sobre alguns livros cuja leitura é indicada para substanciar a formação cultural e contribuir para percebermos através de outro enfoque e perspectiva eventos e momentos históricos relevantes da nossa História.

As relações pessoais pelas quais passou o personagem jamais de enraizaram diante das dificuldades oriundas de entender o que lhe aconteceu. É como se as dores da lembrança fossem uma barreira intransponível, impedindo convivências harmoniosas e sem culpa.

Debatendo-se sobre a questão se há ou não explicação para Auschwitz e o extermínio massivo de milhões de judeus conclui que o que acontece somente existe porque é possível, “somente é possível o que acontece”, apesar dos horrores, maldades e desumanidades que, eventualmente, lhe são intrínsecas.

O que é o mais interessante na obra é que uma pergunta sobre a vida desencadeia por parte do escritor uma tormentosa reflexão sobre os caminhos não naturais da morte.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                            

Pois é isso o que você vai encontrar nesse romance do escritor Sándor Márai. E essa extraordinária miscelânea não impediu que construísse uma literatura de primeira qualidade, sobre um tema histórico tão caro aos brasileiros.

Márai apaixonou-se por esse trágico momento da nossa História após ler uma tradução inglesa de Os Sertões e ficar completamente atordoado. Retrata, com descrições precisas e líricas do quadro físico do Nordeste (“a seca passou a asfixiar as pastagens”), os momentos finais de Canudos quando os militares – após três fracassadas expedições – dizimam a população sublevada restabelecendo a “ordem” na República recém-fundada.

O personagem que conduz a história é um dos representantes da repressão militar que, apesar de incansavelmente buscar subterfúgios inconscientes para justificar seus atos e de seus companheiros, mostra-se abalado pelos fatos e impressionado com a força de caráter dos resistentes sertanejos, entre os quais os supostos três últimos que insistem na sobrevida de Antônio Conselheiro (“Mandou dizer que está vivo. Não há nada que você possa fazer. É inútil ter canhões. Amanhã haverá dez Canudos no Brasil. E depois de amanhã, cem” / “O bom Conselheiro não vai ser enjaulado”, pág. 85), apesar do líder da repressão mostrar a sua cabeça decapitada para autoridades e representantes da imprensa nacional e internacional.

Todos os brasileiros devem ter ao menos uma mínima noção do que representou Canudos - um dos principais movimentos de revolta do século XIX em todo o mundo e que vem inspirando obras ficcionais (como A Guerra do Fim do Mundo, do peruano Mario Vargas Lhosa) e estudos críticos contundentes (como o livro Holocaustos Coloniais, do estadunidense Mike Davis) -, e a leitura desse livro pode ser uma belíssima introdução tendo por base um olhar estrangeiro distante, mas não irreal.

 

 

(Artigo originalmente publicado no jornal “Tempo”, de Monte Alto, 25/07/14)

Quando o bom humor é mau negócio

Aécio, abutres e arrocho

             Após a última pesquisa eleitoral para a presidência da República, os preços das ações disparam na BOVESPA, devido a um suposto avanço do candidato Aécio Neves nas pesquisas eleitorais. A possibilidade de segundo turno foi comemorada pelas notícias editorializadas de nossos grandes jornais – além dos ecos que obteve no sempre manipulador Jornal Nacional (nunca consegue dar uma notícia que não esteja contaminada pelos interesses mesquinhos e interesseiros da Rede Globo) e na CBN, uma verdadeira “Central de Boatos Nacionais”, tão bem “elaborados” por jornalistas e comentaristas acumpliciados, destacando-se a diretora geral de jornalismo, Marisa Tavares.

            Nossos “grandes” jornais (não em qualidade e isenção) e redes de tv são descaradamente aecistas / PSDB, apesar de se dizerem isentos e independentes (risíveis em seu comportamento dissimulado; basta acompanhar como incansavelmente manipulam o noticiário e são incapazes de “ouvir o outro lado”; são o que comumentemente é conhecido como covardes de informação).

            Na verdade, o “bom humor” da BOVESPA, nesta 6ª feira, 18/07, indica que os “abutres” da especulação encontraram seu candidato e isso não é boa notícia para nenhum país. Aécio Neves, de uma nulidade política característica, é privatista – tal como sempre foi o PSDB -, antinacionalista, favoráveis à corte de despesas para os pobres (programas sociais), mas não para os ricos que, certamente, terão suas demandas de ganância satisfeitas, tal como aconteceu nos anos FHC, o mais medíocre presidente da História desse país – não é uma opinião pessoal, mas sim sustentada na História, pois nunca, jamais em qualquer momento, tivemos um presidente que quebrou o país três vezes, ou seja, levou-o a falência.

            A política econômica de Aécio comporta as seguintes metas: arrocho salarial (restringir os ganhos reais do salário mínimo para diminuir a inflação, conforme seus assessores econômicos mais próximos não se cansam de dizer em entrevistas vulgares e tediosas), corte nas verbas sociais (os jornais diariamente nos trazem notícias do desgosto peessedebista com o Bolsa Família e os Mais Médicos, este com significativo apoio popular entre os mais pobres – 64%). O governo Aécio, se vencer as eleições, será de e para plutocratas, como sempre a serviço da “Casa Grande”. Sensibilidade social zero.

            Repito: isso não é previsão nem opinião, é História. Lembrem-se e analisem o Governo FHC e a catástrofe aeciana enquanto foi governador de Minas Gerais. É um “menino” vaidoso, despreparado, com carreira medíocre oportunista, alavancada pelos ombros do avô, Tancredo Neves.

            Nenhumas de suas propostas são consistentes e originais. São vulgares e artificiais, dando sinais inequívocos de seu despreparo e futilidade. É mais um ventríloquo, incapaz de opinião própria, manietado por interesses e grupos que sempre estiveram voltados contra os interesses reais do Brasil. Servem prestimosamente para o “Brasil de 20 milhões” – candidatos como esse, são aqueles que a mídia brasileira controlada por famílias medievais, adora. As mentiras que tão fartamente nos distribui diariamente atingirão um novo patamar no esforço para eleger a nulidade mineira.

 

            Aécio – seu partido PSDB e apoiadores como o DEM, onde estão políticos que foram serviçais da ditadura militar – estão ansiosos para voltar ao controle e realizarem uma farta distribuição de “bolsas banqueiros” e “bolsas privatização”, fazendo o papel que lhes cabem tão bem de “Robin Hood às avessas.”.

Navegar e boiar

“Navegar” não é aprender

 

            Sessenta milhões de brasileiros participam do Facebook. É um número muito significativo, pois equivale a 30% de todos os brasileiros.

            Essa conexão expressiva frequentemente cria ilusões e distorções sobre uma eventual compensação relativa ausência de estudo efetiva. É como se estar conectado ao longo de muitas horas do dia pudessem sobrepujar as deficiências de estudo – e, consequentemente, intelectuais – através de uma inacreditável supressão da escola e daquele que deveria ser seu principal mediador, o professor.

            Não é a “rede mundial de computadores”, com suas inúmeras redes sociais e sites de pesquisa que transformarão a seguinte realidade: apenas 40% dos alunos do primeiro ano do Ensino Fundamental 2 (5º ano) possuem um nível adequado de compreensão de leitura. Ou seja, apenas 4 em cada 10 brasileiros entendem de fato o leem. Os outros 6 “boiam”, tornando-se presas fáceis de informações limitadas, distorcidas, manipuladas, de má fé as quais, geralmente, dão eco – ou porque muitas vezes atendem ao seus instintos primários ou porque estão desaparelhados de qualquer sinal de sensatez devido a completa incapacidade de desenvolver o mínimo espírito crítico. Portanto, resta a boçalidade conveniente, compartilhada ou aquela que sequer é percebida.

            Cabe lembrar que em sua origem a expressão “boçal” referia-se ao escravo recém-chegado da África que não falava o português, opondo-se àquele que aqui já se encontrava – o “ladino”. Em vista disso, 60% dos brasileiros são mesmo “boçais”. Falam a língua pátria, mas não necessariamente a entende em sua forma escrita. É um preocupante indicador de analfabetismo funcional.

            Lembrando que em recente análise do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) englobando 65 países, o desempenho brasileiro confirmou um destaque sofrível: 55º lugar em Leitura (Matemática: 58º; Ciências: 59º). O BID analisou os dados do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA), o mais avalizado globalmente na área de educação e de ocorrência bianual.

            Está mundialmente comprovada que não é a Internet que fará dos estudantes brasileiros produtores de conhecimento. Até o momento, formamos muito mais consumidores de leitura que pouco sabem de analisar, relacionar e compreender textos escritos. Nas redes sociais é fácil perceber que temos muitos leitores de linhas de um texto ou quando muito de um parágrafo, a partir do qual passam a fazer ilações inadequadas, enviesadas e até mesmo preconceituosas (o que é muito frequente, infelizmente).

 

            Sem entrar “na camada interna dos textos” (Beatriz Cardoso), os leitores primários continuarão a ser predominantes. E para combater essa gritante ineficiência é necessário expandir o papel da escola e não acreditar que o mundo virtual – de muitas virtudes sim, mas também de inúmeras limitações e graves deficiências – seja o Santo Graal das nossas aberrantes deficiências intelectuais, culturais e pedagógicas.

14 milhões por hora

O custo da corrupção

            R$ 126 bilhões é dinheiro que não acaba mais. Pois este é o valor parcial estimado da corrupção anual no Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário. Algo como 7% do PIB ou 345 milhões de reais por dia, mais de 14 milhões de reais por hora ou bem próximo do que o governo brasileiro paga a cada 12 meses de juros da sua dívida interna.

                Parcial porque o IBPT acredita que isso corresponda, na verdade, a apenas 38% do total efetivamente desviado. Procurou trabalhar com dados comprováveis divulgados pela imprensa nos últimos 17 anos. Logicamente que muitos casos ficam foram da grande mídia. As “pequenas corrupções” das cidades interioranas, por exemplo. Todos devem se lembrar do envolvimento de diversas prefeituras da região de Ribeirão Preto num esquema de corrupção da empresa Leão & Leão.

                Esse valor desviado anualmente dos cofres públicos seria suficiente para dotar o país dos investimentos urgentes e necessários de adequação da sua infraestrutura (portos, estradas, energia, saneamento, habitação) superando déficits históricos que minam a potencialidade brasileira. Um exemplo: mais de 4 milhões de crianças do semiárido nordestino não tem acesso regular a água e isso implica na continuação de mortes anuais totalmente desnecessárias causadas por doenças facilmente evitáveis, tal como a diarreia. Situações como esta poderiam ser imediatamente resolvidas com a ampliação do programa Bolsa Família, extremamente eficiente na redução da pobreza e da extrema pobreza. Esse programa é muito mais ágil em seus benefícios do que os aumentos do salário mínimo. Seu impacto na diminuição da pobreza é 2,5 vezes maior do que o salário mínimo e 7 vezes maior na redução da extrema pobreza.

                Corrupção significa, portanto, incapacidade de investimento público adequado, mortes inúteis (como também boa parte das mais de 10 mil mortes anuais que ocorrem nos 300 acidentes diários das nossas estradas), além de determinar uma abusiva carga tributária (36%) que corroem a viabilidade administrativa - financeira das pequenas e médias empresas e, consequentemente, a expansão do emprego. Falta ao país uma legislação contundente capaz de punir severamente os responsáveis pelos desvios, que deveriam devolver o que roubaram, caso contrário, as penas seriam progressivas e até perpétuas. Afinal, em algum lugar este dinheiro está.

                Lógico que diante das proporções absurdas da corrupção brasileira temos que analisar a tolerância a ela. Por exemplo, a cada eleição vereadores, deputados, senadores e candidatos a cargos executivos são eleitos apesar de um notório passado de falcatruas. Paulo Maluf sempre tem votação surpreendente aqui no Estado de S. Paulo, apesar de ao longo da sua vida pública não existir um único momento em que não tenha se envolvido em trambiques. A complacência paulista – e especialmente paulistana – com o maior protótipo da corrupção nacional não é um bom indicativo a respeito da possibilidade de um futuro mais comedido quanto à corrupção pública nacional.

Outra coisa anômala e da qual nossa imprensa é uma cúmplice servil é na identificação dos corruptores. A mídia retrata quem se vendeu, mas, raramente, nunca quem comprou. Sobre esses últimos quase nada se fala. Obviamente, porque boa parte deles são politicamente afinados com a ideologia de nossos meios de comunicação, além de serem anunciantes portentosos. Um manto da conveniência os cobre, omitindo-se informações relevantes. À corrupção de numerários se une a moral, com efeitos muitos mais dramáticos e desalentadores.

Nota: não podemos deixar de lembrar especialmente em um momento como esse, que há também a corrupção da arrogância temperada com a alienação que fere princípios fundamentais, como bom senso e, naturalmente, a honestidade. Refiro-me ao comportamento do Felipão e Parreira após a derrota histórica contra a Alemanha. Realizaram um trabalho sustentado no improviso e na crença de que com a sucessão deles e de erros primários, chegaríamos ao acerto. E, quando isso não ocorre, afirmam hipocritamente que “estávamos no caminho certo”, “foi um apagão”. Que “gracinha”.

(Originalmente publicado no jornal “O Tempo”, de Monte Alto, em 11/07/14)

Autismo econômico

Somos 1/3 do Chile

            Vacilantemente vencemos o Chile nas oitavas de final da Copa do Mundo e essa “vitória magra” e, até certo ponto, injusta é uma das poucas que podemos celebrar se nos compararmos a este nosso vizinho de modestas dimensões territoriais (metade do Estado do Amazonas).

            A economia é um exemplo que evidencia a baixa inserção brasileira no comércio internacional. As nossas trocas globais – compra e venda de produtos – correspondem a praticamente a um terço das chilenas, sendo que este país tem uma economia muito menor que a nossa. A exportação de bens e serviços corresponde a 34% do PIB da nação andina; a do Brasil, 13%. Quanto à importação, “placar” semelhante se repete – 34% x 14%.

            A exportação de serviços são apenas 1,8% do nosso PIB, bem abaixo da média latino-americana (4,1%) e de outras nações “emergentes” como a Índia (8%). Em um mundo globalizado, nada adianta fugir ou se abster de integrações que dão sinergia econômica e contribuem efetivamente para ampliar a geração de riqueza. Como as demandas sociais são amplas e cada vez mais diversas, todos os países necessitam dos demais para atender a essas necessidades. Não dá para ser uma autarquia burocrática e centralizadora em um mundo cada vez mais expansivo em opções. O autismo econômico não é, naturalmente, uma dessas opções.

            É inegável que a abertura comercial favorece o refinamento econômico, pois gera inovações, novas estratégias de gestão, proporcionando, concomitantemente, modernização de recursos técnicos e humanos. O Instituto Global McKinsey, dedicado a consultoria relativa a economia e negócios, concluiu que “países dedicados a ampliar as conexões em escala global registram acréscimo de até 40% na geração de riqueza” (O Estado de S. Paulo, 29/06/14). No caso brasileiro, contribuiria para um acréscimo de 1,25% de crescimento anual do PIB (Produto Interno Bruto). Incremento significativo, especialmente se levarmos em conta o momento atual marcado por previsões modestas de crescimento econômico para 2014 – entre 1% e 1,5%.

            E, paradoxalmente, o Brasil é um dos países mais conectados do mundo – ao lado de Estados Unidos e China – com 60 milhões de brasileiros cadastrados no Facebook (expressivos 30% da população), mas se coloca mal em comunicação externa, estando em 38º lugar entre 131 países analisados. Na prática, isso significa uma reduzidíssima troca de informações entre pessoas, empresas e governos visando o aperfeiçoamento econômico e laboral.

            Está na hora de deixarmos de ser uma aldeia cercada pelas montanhas da burocracia e baixa produtividade.

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            Se “a Dilma comprou a Copa” como se tornou corriqueiro dizer nas redes sociais, ela não pagou um bom preço e tudo indica que fez o pagamento parcelado e o pior, aparentemente, nossos adversários não estão sabendo ou ainda não receberam o dinheiro, já que estamos passando apuros sucessivos com um jogo indefinido e horripilante. Na verdade, a estupidez é democrática. Está disseminada por toda a sociedade e com veemência em certos setores da opinião pública.

 

(Artigo originalmente publicado no jornal “O Tempo”, de Monte Alto, 04/07/14)

Futebol e Meio Ambiente

Copa do Mundo ambiental

 

            Responsabilidade ecológica – ambiental faz bem para o futebol. É o que podemos concluir se realizarmos um paralelo entre os times com bom desempenho nesta Copa e os cuidados que dedicam ao meio ambiente.

            Destacam-se Alemanha, Costa Rica e Holanda, com os demais tendo papéis de coadjuvantes ou até mesmo marginais (descuido quase absoluto).

            Em 2013, por exemplo, a Alemanha foi a nação que realizou os maiores investimentos globais em energia eólica e solar, fazendo com que a maior parte da energia gasta no país fosse de fontes alternativas renováveis não comuns, ou seja, o país realiza um enorme esforço para reduzir a origem nuclear de seu energia consumida. E tem mais: é o mais severo país europeu quanto ao uso dos transgênicos, limitando-os ao mínimo, evitando que uma padronização perniciosa contamine a sua agricultura – algo que o Brasil não soube evitar.

            O surpreendente futebol da Costa Rica, por sua vez, faz com que esse pequeno país da América Central nos chame a atenção por suas particularidades nada comuns na América Latina e em todo o “mundo do Sul” (países subdesenvolvidos). Além de ser a mais sólida democracia latino-americana, com inigualável estabilidade institucional (um dos fatores que certamente colaboram é o fato do país não ter Forças Armadas e persistente espectro golpista que elas representam; o último golpe de estado que lá ocorreu foi em 1941) e já ser o “campeão mundial de felicidade” (ONU), é o quinto país do mundo com melhor desenvolvimento ambiental. Recuperou em um esforço nacional notável as suas matas nativas destruídas, ao mesmo tempo, que realiza investimentos em ecoturismo que, de novo, fazem dessa nação uma referência global.

            E a Holanda? País com significativas limitações geográficas, já que um terço do seu território está abaixo do nível do mar e, consequentemente, não há espaço a ser perdido. O tratamento dado aos resíduos sólidos (lixo) é exemplar. Com essas condições impróprias ao desperdício, governo e empresários investem para uma destinação final ecologicamente saudável: 80% é reciclado, 16% é incinerado e, apenas, 4% vão para aterros que – por ocuparem espaço – são caríssimos. Cada vez mais contêineres subterrâneos são utilizados para armazenamento. Anualmente, cada residência desembolsa 250 Euros (quase R$ 800) para terem uma destinação segura de seu lixo. O que fica evidente é que há uma responsabilidade compartilhada atrelada a uma conscientização da sociedade sobre o que precisa ser feito.

            E o Brasil?

            Mereceria uma análise à parte. Mas o claudicante futebol que nossa seleção tem apresentado tem paralelo com a nossa pouca efetividade em responsabilidade ambiental. A nossa geografia evidencia um patrimônio ambiental único e invejável drasticamente afetado pelo descaso de governos, empresários e sociedade. Nossa história evolui sustentada no imediatismo, deixando claro nossa inapetência de agirmos numa perspectiva de longo prazo, modelando um futuro que pudesse nos aproximar dos exemplos acima.

 

(Artigo originalmente publicado pelo jornal “O Imparcial”, de Monte Alto, em 04/07/14)

Gansos e tartarugas

Gansos asiáticos

 

            Sérias dificuldades de coordenação motora, tal como não conseguir andar meio quarteirão de bicicleta sem desequilibrar-se; crianças sofrendo de curvatura na espinha; 75% delas míopes e também com “síndrome do pescoço de tartaruga”, na qual a cabeça é inclinada para frente ansiosamente; queda da natalidade devido aos altos custos do ensino particular, principalmente dos cursinhos preparatórios.

            Essas são patologias das sociedades japonesas e sul coreanas – aquelas que apresentam alguns dos melhores resultados nas competições educacionais internacionais, especialmente na área de Exatas. A que custo? Vale a pena?

            Minar a infância, subtraindo dela a ludicidade, as fantasias, forçando-as a viver hoje com base em um hipotético amanhã, sem tempo livre e tomadas por uma obsessão de desempenho que, certamente, as tornara amargas e socialmente retraídas. Como alguém pode passar pela infância sem contemporizar por longos e saborosos períodos com os amigos? Brincar, divertir-se envolve um aprendizado humano único e, portanto, insubstituível. Será que os macacos – e os símios em geral, mamíferos muito semelhantes a nós – vão ter que nos ensinar isso também?

            Parece elementar que não há nada mais importante do que aprender a se comunicar, a interagir e alguns modelos pedagógicos parecem querer suprimir isso em prol da conquista de desempenhos supostamente brilhantes, mas de alto custo emocional e psicológico. Comprometer a saúde mental e física não é o caminho mais adequado para se formar um “bom aluno”.

            Será que é por isso que a Coreia do Sul, em 2012, ficou em quinto lugar em matemática e alfabetização nos testes da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) – um bom desempenho, sem dúvida – mas em 62º em solução de tarefas complexas e, prestem atenção, em último lugar no quesito “felicidade na escola”.

            Olha que estratégia “brilhante”: vamos educar para que você seja infeliz!! Nada como ter crianças e jovens amargos, acabrunhados, depressivos aos milhões. Que tipo de sociedade sobreviverá disso? Provavelmente, aquela formada por um grupo de pessoas com pouco domínio sobre a própria vida e com permanente lapsos de ansiedade. E pensando o seguinte: “eu preciso de um sentido”.

            E comprovando que temos imensa dificuldade em aperceber-se do outro em sua essência, curiosamente é crescente o número de pais que são cúmplices na construção de um futuro tão sombrio para seus filhos, eventualmente desculpando-se por “estarem fazendo o melhor”

            Não sou o primeiro a lembrar de que essa situação paradoxal nos faz pensar no sacrifício ao qual são submetidos os gansos que tem seu fígado dilatado a força para ser convertido em patê. A sua cabeça é segurada, um cano é enfiado no seu bico, no qual é ingerido comida à força, a qual a pequena ave não quer. Além disso, seu pescoço é amarrado para que não vomite. É difícil saber quem é o ganso?

 

 

(Artigo originalmente publicado nos jornais “O Imparcial” e “O Tempo”, de Monte Alto, no dia 27/06/14)

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